Relatório inédito mostra que gases do efeito estufa cresceram 15,6% desde 2005 e que países em desenvolvimento dizem precisar de US$ 3,4 trilhões para agir contra a crise do clima, mas receberam apenas US$ 60 bilhões.
A ONU afirmou nesta sexta-feira (31) que as emissões globais de gases do efeito estufa continuam crescendo e que o financiamento climático está muito abaixo do necessário para frear a crise.
O dado consta no primeiro Relatório Síntese dos Relatórios de Transparência Bienais (BTRs), divulgado pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) a poucos dias da COP30, em Belém.
ENTENDA: O documento é o primeiro do tipo desde a criação do Acordo de Paris e reúne informações enviadas por mais de 100 países sobre emissões, políticas públicas e financiamento climático.
O relatório é visto como um “termômetro” da implementação real dos compromissos assumidos nos últimos dez anos.
Mas o diagnóstico é preocupante: as emissões continuam em alta e o dinheiro disponível para conter a crise climática ainda é insuficiente, e distribuído de forma desigual.
Os dados mostram que, entre 2005 e 2021, as emissões globais aumentaram 15,6% entre o grupo de 81 países com séries comparáveis.
No total, passaram de 31,6 para 36,6 gigatoneladas de CO₂ equivalente, número que não inclui as emissões do setor de uso da terra e florestas (LULUCF).
📌 ENTENDA: Essa medida em CO₂ equivalente soma os diferentes gases do efeito estufa de acordo com o quanto cada um retém calor, o que permite comparar e somar suas emissões em uma única unidade padrão de impacto climático.
Segundo a ONU, o levantamento reúne, pela primeira vez, inventários nacionais elaborados dentro do novo modelo do Acordo de Paris.
Assim, os dados mostram, de forma mais direta, o que cada país colocou em prática e o quanto o corte de emissões ainda está longe do necessário.
O avanço das emissões, ainda segundo o relatório, não é um desvio pontual, mas parte de uma tendência que atravessa diferentes regiões e setores.
Isso porque o aumento reflete tanto a retomada econômica após a pandemia quanto a força de atividades altamente poluentes, como energia e transportes, que continuam crescendo mesmo com políticas de mitigação em curso.
“O Acordo de Paris está funcionando, mas o ritmo da mudança ainda não corresponde à urgência deste momento”, afirmou o secretário-executivo da Convenção, Simon Stiell, ao divulgar o relatório.
Ele acrescentou que a COP30 “precisa enviar um sinal claro” de que os países continuam comprometidos com a cooperação climática global e que é preciso “ampliar e acelerar” a transição para economias de baixo carbono.
O relatório também aponta que, embora os países estejam começando a implementar medidas concretas, como ampliação de energias renováveis, eletrificação do transporte e projetos de reflorestamento, a velocidade e a escala dessas ações ainda estão muito aquém do necessário.
Segundo o documento, a soma das políticas relatadas até agora não é suficiente para colocar o mundo na trajetória de 1,5 °C de aquecimento, limite definido pelos cientistas para evitar impactos irreversíveis.
“O Brasil também teve dificuldades de fazer projeções sobre o cumprimento das metas do Acordo de Paris nesse primeiro Relatório Bienal de Transparência. Mas esses relatos, bastante extensos, são fundamentais para a correção de rumos nas políticas climáticas”, avalia Marta Salomon, especialista em políticas climáticas no Instituto Talanoa
Dinheiro insuficiente e desigual Além das emissões em alta, o relatório mostra que o financiamento climático continua muito abaixo do necessário e segue marcado por forte desigualdade. Países em desenvolvimento estimam precisar de US$ 3,4 trilhões até 2030 para cumprir suas metas e se adaptar aos impactos do aquecimento global, como secas prolongadas, enchentes e perda de colheitas. Mas o volume relatado como efe
tivamente recebido foi de US$ 60,8 bilhões, o que representa menos de 2% do total calculado como necessário. Entre 2021 e 2022, o financiamento médio anual fornecido por países desenvolvidos ficou em torno de US$ 63 bilhões, valor semelhante ao registrado em relatórios anteriores e ainda distante da meta de US$ 100 bilhões por ano, prometida desde 2009. Por isso, o texto observa que, sem uma ampliação significativa e previsível desses recursos, o esforço global para conter a crise climática tende a avançar lentamente. Outro problema é a falta de transparência e padronização. Muitos governos relataram dificuldade em contabilizar e rastrear o dinheiro recebido, seja por falta de sistemas nacionais de informação, seja por diferenças na forma de calcular o que é ou não considerado “financiamento climático”. O próprio relatório reconhece que ainda não há uma definição comum, o que contribui para as divergências entre os números informados por doadores e receptores. Em paralelo, o documento observa que a maior parte dos recursos continua concentrada em ações de mitigação (como redução de emissões), enquanto a adaptação — essencial para reduzir os danos em países pobres — ainda recebe menos da metade dos valores necessários.
Lacunas de dados e transparência desigual
A síntese da ONU também revela grandes diferenças na capacidade de reportar informações climáticas.
Dos 66 países em desenvolvimento que apresentaram relatórios completos, 47 recorreram às flexibilidades previstas no Acordo de Paris, por falta de pessoal técnico, infraestrutura ou dados consolidados.
Essas lacunas dificultam comparações entre nações e limitam o monitoramento global.

